Acidente Loxoscélico (Aranha-Marrom)
Acidente loxoscélico (aranha-marrom): picada indolor, noturna, geralmente em casa (roupa guardada, cama, chinelo). Manifesta em 24–72h: lesão violácea com halo eritematoso pálido ('halo marmóreo'), que evolui para necrose em 7 dias. Forma cutâneo-hemolítica (5–16%) tem hemólise intravascular, IRA — mortalidade alta. Soro antiaracnídico eficaz nas primeiras 36h, depois pouco útil.
Antídoto — Soro Antiloxoscélico (SALox) ou Antiaracnídico (SAA) — Instituto Butantan
CUTÂNEA LEVE: soroterapia não indicada rotineiramente. MODERADA/GRAVE ou CUTÂNEO-VISCERAL: 5 ampolas IV (diluído em SF 0,9% 100-250 mL em 30-60 min). MÁXIMA EFICÁCIA nas primeiras 36h. Pré-medicar: prometazina 25 mg IM + hidrocortisona 100-500 mg IV.
Manifestações clínicas
- FORMA CUTÂNEA (85-90%): após 2-8h dor em queimação, eritema, edema; em 12-24h placa marmórea (lesão em alvo); em 3-7 dias necrose seca com escara escura
- FORMA CUTÂNEO-VISCERAL (10-15%): hemólise intravascular aguda nas primeiras 24h — palidez, icterícia, hemoglobinúria (urina 'coca-cola')
- COMPLICAÇÕES SISTÊMICAS: IRA por hemoglobinúria, CIVD, trombocitopenia
- A picada frequentemente não é percebida (noturna) — diagnóstico clínico-epidemiológico
Diagnóstico
- Clínico: lesão em placa marmórea em área endêmica (PR, SC, RS, SP)
- Hemograma, reticulócitos, haptoglobina: anemia hemolítica
- Urina tipo I: hemoglobinúria (urina avermelhada sem hemácias no sedimento = hemólise intravascular)
- Creatinina, ureia, eletrólitos; coagulograma: rastrear CIVD
- LDH e bilirrubinas (indireta elevada na hemólise)
Tratamento
- ABC — acesso venoso calibroso; hidratação vigorosa IV (>1-2 mL/kg/h de diurese) para proteção renal
- NÃO realizar incisão, sucção, torniquete, gelo ou calor na lesão
- Analgesia sistêmica: dipirona 500-1000 mg IV 6/6h ou tramadol 50-100 mg IV
- Alcalinização urinária (NaHCO₃ 1-2 mEq/kg IV) se hemoglobinúria (manter pH urinário >6,5)
- Soroterapia conforme gravidade e tempo de picada (<36h)
- Dapsona 100 mg/dia VO 5-10 dias (adultos): USO CONTROVERSO — contraindicada em deficiência de G6PD
- Desbridamento cirúrgico apenas após demarcação completa da necrose (geralmente após 2-3 semanas)
Fontes científicas
- Ministério da Saúde/Funasa. Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos. 2ª ed. Brasília; 2019.
- Instituto Butantan. Soro antiloxoscélico — bula e protocolo clínico; 2021.
- Swanson DL, Vetter RS. Loxoscelism. Clin Dermatol. 2006;24(3):213-21.